"Suponhamos que dois bombeiros entram numa floresta para apagar um pequeno incêndio. No fim, quando saem e vão para a beira de um riacho, um deles tem a cara toda coberta de cinzas e o outro está imaculadamente limpo. Pergunto: qual dos dois vai lavar a cara?
- É uma pergunta tola, é evidente que será o que está coberto de cinzas.
- Errado, o que tem a cara suja vai olhar para o outro e pensar que está igual a ele. E vice-versa, o que tem a cara limpa vai ver que o seu companheiro está com fuligem por toda a parte e dizer para si mesmo: “também devo estar sujo, tenho de me lavar.”
- O que queres dizer?
- Hoje entendi que me procurava sempre a mim mesmo na mulher que amei. Eu olhava para o seu rosto limpo, lindo, e via-me reflectido nela. Por outro lado, ela olhava para mim, via as cinzas que cobriam a minha face e, por mais inteligente e mais segura que fosse, acabava também por se ver reflectida em mim e a achar-se pior do que era. Isso passou-se com a mulher que amei. E só o compreendi quando me lembro agora das mudanças no seu olhar. Eu absorvia sempre a sua luz, a sua energia, o que me deixava feliz, seguro, capaz de prosseguir. Ela olhava para mim, sentia-se feia, diminuída, porque, à medida que os anos passavam ia deixando a nossa relação para segundo plano."
(Paulo Coelho)
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