Isto de trabalhar a partir de casa tem coisas boas, coisas óptimas e coisas lixadas.
É óptimo poder fazer os meus horários - mesmo que isso implique começar às 4h e largar às 00h - acontece.
É óptimo poder fazer jogos com os putos no chão quando nos apetece.
É óptimo poder desligar o computador e dedicar-me à faxina. É óptimo não ligar aos mails e aspirar, engomar, limpar o pó, arrumar roupas dos pequenos que deixaram de servir.
E é horrível quando nos pedem um trabalho para sexta e explicamos que não dá, porque já temos muito e tal. «Então pode ficar para segunda logo de manhãzinha.» OK, partem logo do pressuposto que se vai trabalhar ao fim-de-semana. Às vezes apetecia dizer f#$%, também preciso do fim-de-semana para mim, para a minha família, para não trabalhar.
E óptimo poder conciliar o trabalho com aquelas pequenas grandes coisas que fazem toda a diferença: ter a casa cuidada, a roupa tratada, as comidas a gosto e a tempo, com um toque de caseiro, de especial, de carinho - porque ponho de mim nisso, porque sou eu, a 100% que faço, colocando tempo, empenho, dedicação, amor.
Gosto tanto que às vezes penso que podia ser daquelas pessoas do antigamente (ainda há?) que quando questionadas pela profissão, diziam «doméstica». É que eu gosto mesmo das coisas da casa!
É óptimo poder ficar com os filhotes quando adoecem sem ter de dar justificações a patrões nem perder vencimento por causa disso e poder cuidá-los, claro! Impagável.
É bom poder ver (ouvir) toda a tralha na Sic Mulher: os masterchefs, os extreme makeovers, os dr. phils ou dr. ozs ou as oprahs!
Mas também gosto muito da minha profissão, de criar texto, de fazer sentidos, de escrever as minhas palavras, ainda que limitadas pelas palavras dos outros. Mas traduzir é também interpretar, criar, ler, fazer entender, escolher.
Sou feliz.
Também é bom estudar. E ter aulas. E voltar a ver outras pessoas e conhecer pessoas novas. Mas este semestre ainda nem sequer sei o meu horário de cor, tal a motivação. Vontade quase nula de ir às aulas. Os livros nem saem da pasta para serem abertos ou lidos. Não há tempo nem vontade.
Estou cansada.
Queria preparar uma surpresa para o mais-que-tudo. A rotina é brutalmente esmagadora e eu não quero que ela se instale. Não quero perder a capacidade de surpreender, não quero ceder perante os meus cansaços, nem ser um dado adquirido. Mas a crise, os diversos (demasiados?) afazeres, as exigências dos miúdos, tudo isso castra a criatividade, a iniciativa, a capacidade... Será que os pequenos gestos do dia a dia, feitos no silêncio do meu estar-só, não passam despercebidos? Não chegará a uma altura em que nem se dá por eles?
Entre as coisas lixadas, desde logo a ausência de um horário fixo e definido, de um poder fechar a porta e deixar lá tudo e (v)ir para casa descansada, a ausência de um vencimento certo, garantido. Depois, a eterna ideia dos outros de que, se eu estou em casa, estou disponível: para o telefone, as visitas. Não estou, nem sempre estou.
Há coisas óptimas, há coisas boas e há coisas lixadas nesta minha vida em casa... É, já sei que a ladainha é velha, é a mesma de sempre, mas há dias em que me apetece percorrê-la over and over again.
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